quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

500 dias com eles

500 dias com eles

Pouco depois da divulgação dos primeiros resultados da Mars500, missão que simulou uma viagem humana a Marte, a ‘CH On-line’ conversou com um dos astronautas que permaneceu 17 meses confinado na Rússia.
Por: Marcelo Garcia/ CH On-line
Publicado em 31/01/2013 | Atualizado em 31/01/2013
Três russos, um francês, um italiano e um chinês a bordo de uma nave espacial. Não é piada, mas sim a mais realista simulação de uma viagem tripulada a Marte já realizada. (foto: ESA)
Um grupo de pessoas, trancafiadas por meses num ambiente fechado, monitoradas 24h por dia, estimuladas a realizar uma série de atividades e com muitas atenções voltadas para elas. Poderia ser um Big Brother se as observações e experiências realizadas nessa ‘nave’ fossem destinadas à seção de entretenimento e não à de ciência dos noticiários. Estamos falando do projeto Mars500, a mais realista simulação de uma viagem tripulada a Marte já realizada, cujos primeiros resultados foram divulgados em janeiro na revista PNAS.
A equipe internacional, escolhida entre mais de seis mil voluntários de 40 países,  permaneceu 17 meses isolados numa instalação que simulava o ambiente de uma espaçonave
A experiência, promovida pelas agências espaciais europeia (ESA), russa (Roscomos) e chinesa (CSNA), ocorreu entre junho de 2010 e novembro de 2011. A equipe internacional, escolhida entre mais de seis mil voluntários de 40 países, permaneceu 17 meses isolada numa instalação na Rússia. A ‘casa’ simulava o ambiente de uma espaçonave e a missão foi divida em três partes: a viagem de ida até o planeta vermelho (250 dias), um período de permanência por lá (30 dias) e o regresso à Terra (240 dias).
A missão procurou avaliar alguns aspectos psicológicos e práticos que podem ser determinantes para o sucesso de uma viagem real a Marte. Vale lembrar que essa jornada teria que superar uma série de outros desafios técnicos, como o tamanho do foguete necessário, e que os astronautas seriam expostos de forma prolongada a problemas impossíveis de simular na Terra, como a ausência de gravidade e a radiação cósmica.

Rotina espacial

Os primeiros resultados do experimento mostraram que os tripulantes sofreram com distúrbios de sono e de humor que poderiam comprometer a missão. Jeffrey Sutton, do Instituto de Pesquisa Nacional de Biomedicina Espacial, dos Estados Unidos, explica que, após a adaptação inicial, houve uma redução acentuada do nível de atividade da tripulação e um dos voluntários passou a sofrer de insônia crônica e sinais de depressão. “Futuras missões deverão manter os tripulantes ocupados com tarefas desafiadoras por todo o tempo e adotar rotinas semelhantes às da Terra”, explica Sutton.

Mars500
A estrutura da Mars500 foi montada nos arredores de Moscou, na Rússia. A grande 'nave' simulava as dimensões de um módulo espacial rumo a Marte. No entanto, alguns elementos de uma viagem real, como os efeitos da microgravidade prolongada, são impossíveis de reproduzir na Terra. (foto: ESA)
A iluminação artificial também pode ter influenciado os problemas enfrentados pelos astronautas. A pouca exposição à luz pode ter prejudicado seus ciclos circadianos, causando prostração e alterações de sono. “Também identificamos que o espectro das luzes utilizadas no experimento era inadequado para manter os tripulantes sincronizados com os ciclos de noite-dia de 24h da Terra”, explica Mathias Basner, da Universidade da Pensilvânia, um dos autores do estudo. “Isso precisará ser adaptado numa viagem real, o que já vem sendo realizado a bordo da Estação Espacial Internacional.”
Para Sutton, o estudo das variações individuais de comportamento e sono pode ser importante na escolha da tripulação de uma futura missão real. “A seleção dos astronautas é crucial para o sucesso da viagem e precisamos mitigar todos os riscos possíveis”, pondera. “Por isso, podemos pensar em desenvolver, por exemplo, biomarcadores para predizer a vulnerabilidade dos candidatos a esses efeitos.”

Um italiano no espaço

Diego Urbina Se a experiência gerou observações importantes para futuras missões tripuladas a Marte, também deixou uma dúvida: o que leva tanta gente – seis mil nesse caso! – a se candidatar a ficar um período de 500 dias confinado no subsolo da Rússia? Para o engenheiro italiano Diego Urbina, o desejo de levar o homem a outros mundos e a vontade de superar seus próprios limites. Em entrevista à CH On-line, ele fala sobre a experiência, uma das mais intensas que poderia imaginar. Urbina relembra o dia a dia a bordo da ‘nave’ Big Brother Marte e comenta os resultados apresentados em janeiro.

CH On-line: Por que você se candidatou ao Mars500? Como foi o processo de seleção?
Diego Urbina: Queria contribuir de alguma forma para a expansão da espécie humana para outros planetas e participar de algo que muitos consideravam que não podia ser feito. Tive a felicidade de ser um dos seis tripulantes selecionados em meio a milhares de concorrentes. Os critérios de seleção foram muitos, desde estabilidade psicológica e estado geral de saúde até habilidades técnicas e motivação. Mas confesso que quando embarcamos, não sabia o que esperar. Por sorte, tudo correu bem, graças à boa interação entre os integrantes e o apoio da equipe de solo.

Como era o seu cotidiano a bordo?

Durante todo esse tempo realizamos mais de 100 experimentos propostos por equipes de todo o mundo, controlamos os sistemas da nave e conduzimos simulações de trabalhos no espaço. Por exemplo, realizamos algumas simulações na superfície de Marte, utilizando trajes espaciais. Além das atividades cotidianas, como a limpeza da nave, que acontecia uma vez por semana com a participação de toda a tripulação. Em nosso tempo livre podíamos ver filmes e jogar, era o entretenimento a bordo. 

E como era a alimentação da tripulação? Não é segredo que a comida espacial não é muito saborosa.
De fato, a tendência foi mesmo da comida se tornar monótona. Mas tínhamos comida de diferentes partes do mundo, da Rússia à China, a mesma comida servida a bordo da ISS. Em geral, bastava acrescentar água ou esquentar as porções individuais no micro-ondas. O cardápio era calculado para prover quantidades necessárias de proteínas, carboidratos e vitaminas. Tínhamos ainda um viveiro que produzia alguns vegetais e essa comida fresca era a melhor, mas raramente podíamos apreciá-la. Mas as refeições eram os momentos de maior interação, em que conversávamos mais e nos conhecíamos melhor.
Refeição a bordo
Astronauta recorda que eram nas refeições os momentos de maior convivência e interação entre os participantes; boa oportunidade para conhecer mais sobre outras culturas. (foto: ESA)
Caminhada em MarteOs cientistas estão pesquisando alternativas de alimentação para viagens mais longas?
Creio que precisaremos desenvolver técnicas para produzir comida e manter o peso em viagens espaciais. Atualmente colaboro com uma pesquisa que tenta desenvolver um método para alimentar os astronautas com algas, muito nutritivas, fáceis de cultivar e que ainda têm a vantagem de produzir oxigênio para respiração.  

E a água que vocês consumiam?
A água era limitada e racionada, então nós só podíamos tomar banho uma vez a cada dez dias. Apesar de ser até fácil se manter limpo, era bem complicado passar tanto tempo sem tomar banho. Para consumo, chegamos a simular a utilização de equipamentos em desenvolvimento para viagens espaciais capazes de transformar a urina dos astronautas em água potável.

Durante o experimento foi realmente possível se sentir numa viagem interplanetária a milhões de quilômetros da Terra, mesmo estando a cerca de 20 metros do centro de controle?
Tínhamos um atraso de cerca de 20 minutos nas comunicações com o centro durante boa parte da viagem e havia horas em que a viagem parecia mais real, sim. Sem dúvida o melhor momento de todo esse período foi o pouso simulado em Marte, realmente nos sentimos muito distantes de qualquer coisa naquele instante. Também foi muito bom provar a mim mesmo que era capaz de fazer uma das coisas mais difíceis que consigo imaginar. E acho que vivenciamos um dos aspectos mais difíceis do isolamento em si, ficar distante dos amigos, de todos que você conhece.

Falando sobre seus companheiros de viagem, era uma tripulação bem heterogênea e problemas de relacionamento no espaço não são exatamente uma novidade. Chegou a haver alguma questão entre vocês? Bem, é claro que tivemos diversas diferenças de opinião, mas não deixamos que nenhuma delas se transformasse em um problema maior. Se por um lado a formação bem diversificada da tripulação era um desafio, por outro acabou sendo uma benção, porque pudemos passar muito tempo aprendendo sobre culturas diferentes da nossa.

Uma questão que chamou atenção sobre a tripulação foi a ausência de mulheres. Em 2000, outra experiência parecida acabou mal por problemas na interação entre homens e mulheres. Você acha que isso influenciou o experimento atual?  Bem, primeiro é preciso dizer que na realidade não havia muitas candidatas mulheres para o experimento. Mas acredito que a curta experiência de 2000 possa ter influenciado a atual, sim. De fato, a presença de uma mulher a bordo teria mudado a dinâmica da tripulação, alguns dirão que para o bem, outros para o mal.  
Wii na Mars500
Por 520 dias, os astronautas mantiveram uma rotina de experimentos científicos e exercícios. No tempo livre, filmes e jogos eram o entretenimento a bordo. Na imagem, Urbina joga videogame rumo a Marte. (foto: ESA)
Você deve ter acompanhado a divulgação dos primeiros resultados da simulação, no início do mês. Você os considera condizentes com o que aconteceu?
Um de nós realmente desenvolveu um padrão de sono diferente dos demais, creio que principalmente devido à iluminação, que não era adequada, como os resultados apresentados destacaram. A parte azul do espectro luminoso é o que diz ao corpo quando é dia e quando é noite. Só depois da missão foi observado que essa parte do espectro luminoso produzido pelas luzes da espaçonave era insuficiente para manter o ciclo de noite e dia adequado. Mas, na média, dormimos mais, cerca de uma hora adicional por dia ao longo da missão. O único efeito disso foi nos deixar mais renovados para o dia seguinte, tanto que nossos placares nos testes de atenção melhoraram.
Não chegamos a perceber uma queda em nossos níveis de atividades ou qualquer diminuição da nossa vontade de nos movimentar ou de executar as tarefas. Inclusive, não paramos de nos exercitar e até pedimos ao controle da missão autorização para aumentar o tempo dedicado a exercícios em nossa rotina. Acredito que os resultados refletem um pouco o cronograma de atividades que seguíamos. Tínhamos mais trabalhos programados para o início da missão do que para suas fases intermediária e final.
Havia apostas na internet que pagariam um bom dinheiro se alguém desistisse. Acho que muita gente perdeu dinheiro por nossa causa!
Vocês experimentaram algum distúrbio psicológico ou comportamental durante a missão?
Não, nenhum de nós apresentou qualquer problema psicológico devido ao isolamento ou a qualquer outro fator envolvido na viagem. Mas é bom lembrar que um dos fatores pelos quais fomos selecionados em meio a milhares de candidatos foi que seríamos mais resistentes a esse tipo de coisa. Isso não quer dizer, no entanto, que a missão não tenha sido bastante dura, não foi nem um pouco fácil passar por essa experiência.

Em algum momento alguém chegou a pensar em desistir?

Na verdade, não. Isso foi engraçado, porque havia apostas na internet que pagariam um bom dinheiro se um dos membros da tripulação desistisse. Acho muita gente perdeu dinheiro por nossa causa!

Reavaliando essa experiência, você acredita que é realmente possível enviar um grupo de humanos a Marte e mantê-lo por lá durante período longo de tempo?

Dependendo do período, acredito que sim. Se pensarmos numa ordem de grandeza semelhante a da nossa missão, isso é certamente possível.
Diversão na Mars500
Apesar da dureza do confinamento e dos problemas ocorridos em experiências passadas e em missões reais desse tipo, o clima entre os astronautas na Mars500 foi tranquilo, sem grandes 'incidentes diplomáticos' durante os 520 dias de isolamento. (foto: ESA)
Qual você considera o impacto desse experimento na sua vida?
Acredito que passar tanto tempo isolado na companhia de meus cinco colegas me tornou uma pessoa mais forte e permitiu que eu desenvolvesse um conhecimento bem maior sobre mim mesmo.

Quais os seus planos para o futuro?
No momento sou um treinador de astronautas da Agência Espacial Europeia. Continuo trabalhando para levar humanos ao espaço, a outros planetas, treinando astronautas para trabalhar em situações extremas, além de tripulações de expedições que vão passar algum tempo na Antártica. Também tenho utilizado meu perfil no Twitter  para comunicar como estamos indo no nosso longo caminho até Marte. Se me oferecessem uma vaga para realmente integrar uma viagem para lá, eu certamente iria. 

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